RITOS E SUAS FUNÇÕES - breves considerações

06-02-2011 19:39

 

 

    A existência humana não se dá de uma forma linear, num desenvolvimento que tem um movimento que aponta apenas em uma direção. Desde que o homem ganhou consciência e adentrou no campo da subjetividade passou a conviver com o caos e o cosmo, num movimento desorganizador e organizador, polarizado e conflituoso. Urobórico.

    Em todas as culturas nota-se esta fuga do acomodamento, da rotina. As grandes questões se apresentam exigindo novas soluções, propondo recomeço, decisões. A vida dinâmica por si só, espelha toda a natureza, num devir permanente, em que todos sem exceção, desde os povos mais primitivos as culturas mais sofisticadas são chamadas a escolher, a optar permanentemente. "..para os grupos, assim como para os indivíduos, viver é continuamente desagregar-se e reconstituir-se, mudar de estado e de forma, morrer e renascer." - Arnold van Gennep.

    Esta dinâmica permanente, exige um continuo discernimento, avaliando, refletindo, ponderando, escolhendo e decidindo que rumo tomar.

 Decisão; este termo corresponde ao que Aristóteles chamava de escolha, ou seja, o momento conclusivo da deliberação no qual se adere a uma das alternativas possíveis. Aristóteles definiu a escolha como “um apetite deliberado referente às coisas que dependem de nós”. Está implícito nesta reflexão uma possibilidade de discernimento do homem, da sociedade numa tentativa de organizar, estabelecer um leito no qual as águas da existência encontrasse um canal, uma direção, um rumo, uma meta.

A vida enquanto conquistas e novidades, com toda a dinâmica que propõe, introduzem a noção de rito, no sentido de celebrar, de demarcar a caminhada e o desenvolvimento, também como expressão dos mitos vividos por esta sociedade que encontram expressão nos símbolos.

Primeiro examinemos a noção de símbolo, sua origem encontra-se no grego clássico. Símbolo/simbólico provem de symballein ou simballesthai. Literalmente significa: lançar (ballein) junto(syn) o sentido é, lançar coisas de forma que permaneçam juntas. Num processo complexo “significa re-unir as realidade, congregá-las, a partir de diferentes pontos e fazer convergir diversas forças num único feixe”. (Leonardo Boff).

“A função primordial da mitologia e do rito tem sido sempre a de prover os símbolos que impulsionam o espírito humano para a frente em contrapartida aqueles outras constantes fantasias humanas que tendem a refrea-lo”. (CAMPBELL in KEEN, VALLEY-FOX, p. 16)

Valendo-se dos símbolos o mito e o rito cumprem função psicológica importante, não é sem motivo que estes existem em todas as culturas do mundo. Alguns até guardando certa semelhança entre si.

            O Rito é um ato religioso simbólico e institucionalizado cuja eficácia e da ordem do indizível, pelo menos parcialmente. Para realizar este ato utilizam-se por vezes, vários objetos. Do ponto de vista da antropologia, o rito visa vivenciar pelo sujeito e pela coletividade mitos religiosos ou sociais, ou pelo menos permitir-lhe representar crenças mágicas. Em outra palavras regras e cerimônias que se devem observar na pratica de uma religião. (Thines, 1984).

Segundo Benveniste, rito vem do latim ritus, que indica a ordem estabelecida e, mais atrás, liga-se ao grego artys, com o significado também de “prescrição, decreto”. (Terrim, 2004)

A idéia de ordem incluída no conceito de rito, de fato é extremamente importante e se torna significativa num âmbito semântico preciso, isto é, lá onde o rito coloca ordem, classifica, estabelece as prioridades, dá o sentido do que é importante e do que é secundário.

O rito nos permite viver num mundo organizado e não caótico, permite-nos sentir em casa, num mundo, que do contrario apresenta-se ia a nos como hostil, violento, quase inabitável, também pode ser visto como uma ação e desenvolve em seu seio uma pragmática transcendental. enquanto propõe evitar a todo custo, a lógica do duplo pensamento.

Agir de determinado modo significa induzir a pensar de determinado modo, e como ação jamais é ambivalente, equivoca, incerta, realizar a ação virtual significa conter o pensamento dentro das malhas da ação clara e significativa. O rito assume neste sentido, um valor que orienta. Ensina a agir de maneira ordenada para se pensar de maneira ordenada (Terrim 2004)

Se for verdade que o cosmos tem a força de opor-se ao caos, isso se deve aos ritos e a sua força organizadora.

O rito segundo Abbagnano trata-se de uma técnica mágica ou religiosa que visa obter sobre as forças naturais um controle que as forças racionais não podem oferecer, ou a obter a manutenção ou conservação de alguma garantia de salvação com relação a estas forças.

Tratava-se, sobretudo, de uma questão de sentidos, de projetos de vida, de valores, de decisões e escolhas comunitárias

O rito, seja qual for, não pode ser formal e desvinculado da vida, e sim se tornar uma ação pedagógica que insere a pessoa num projeto de sociedade com uma identidade cultural bem específica.

Neste sentido vale ressaltar que ritualizar é fundamentalmente o processo pelo qual se formam ou se criam os ritos (Terrim, 2004, pg. 20) há ações que são ritualizadas, levando a padrões de comportamento, Tornando-se repetitivas. Mas a ritualização automática pode levar ao esvaziamento do sentido do rito, tornando-o formal e estéril.

O rito, que é o aspecto litúrgico do mito, transforma a palavra em verbo, sem qual ela é apenas lenda. Legenda, o que deve ser lido e não mais proferido

Os ritos produzem consciência dos aspectos mais importantes da vida de uma sociedade e de alguma forma captam as sensações e sentimentos desta mesma sociedade. Como em sua boa parte pertence ao campo do indizível, as sensações produzidas nestes fenômenos produzem valores que se internalizam no homem e na sua sociedade, sendo por isso transmitido de geração em geração.

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